Você: o meu regime forçado. O que me tira a fome quando lembro da sua eterna cara de interrogação sem que eu possa responder. Você é o ponto final que não existe, a frase que nunca termina, reincidente e reticente amor sem rima no meio do contexto. Aquele que sempre fica quando os outros vão. E que não fica nunca.
Você é quem eu não amo, apenas no cenário que você criou pra tentar deixar de ser o bandido. E que finge acreditar na própria ilusão pra não ter que ficar com pena de mim por não sentir tanto de volta, embora queira, eu sei. Sinto muito, o dormente é você. Você e essa vontade demente que tem preguiça de correr atrás de mim e que sempre me faz andar pra trás. Retroceder pra estar contigo. É o que não cabe em mim. O que não me deixa entrar em você. O sonho urgente que nunca me dá chance de ser realizado porque vem sempre com pressa. E aí eu acordo antes do fim.
Você é quem ocupa o espaço equivalente ao de um cemitério de elefantes na minha cabeça. E o meu coração se transformou numa selva cujo rei da cadeia alimentar é você. O leão que eu tento matar todos os dias e sempre acabo saindo ainda mais ferida. Suas palavras-garras. Suas dúvidas-presas que sempre me mordem dois centímetros ao lado de um ponto vital.
Você é o lugar pra onde eu vou toda vez que me distraio e ligo o piloto automático. Sempre encontro todos os sinais fechados. Chego atrasada e você não está mais lá. Você já esteve?
Você é quem embarga minha voz ao telefone, é minha força absurda pra não chorar. Travo o choro pra não derramar você. E é quem transborda de mim toda vez que falo sobre o seu lado bom. Todo mundo diz. Já não escondo.
Você é o hoje que não existe entre o ontem e o amanhã. É a realidade suspensa que pesa sobre os meus ombros. O dia que não passa, as horas que eu gasto com nada, a lembrança inconveniente que interrompe conversas importantes. Do que eu estava falando mesmo? Claro, o de sempre, você.
Você é a pergunta meio acanhada das pessoas que sabem muito sobre mim. É aquela “certa pessoa” que eu evito pronunciar o nome por estar longe de ser a pessoa certa. Você é um erro. Meu assunto chato que ninguém aguenta mais ouvir. Você e seu déficit de atenção comigo. Você e a sua dislexia amorosa. Você e a sua preguiça na parte em que a lição chega em mim. Você nunca me faz.
Você é a alucinação das minhas febres internas quando inflamo e ninguém vê. Você e seu ar de loucura que sempre me deixa sem ar. Você que me salva no último minuto. Não sei a razão.
Você é meu cantinho escondido que eu sempre vou pra chorar quando a vida machuca. É o centro das minhas orações em silêncio. É o dia branco no meio dos cinzas. Você e as nossas maluquices, o "eu te amo" no meio de uma conversa nada a ver. A exceção da regra é você, meu gosto duvidoso.
Você é o cheiro de álcool que sai de mim junto com o discurso de saudade de você que eu sempre faço nas mesas dos bares aonde vou, pra desconhecidos que sei que não vou e nem posso encontrar.
Você é o caminho torto que faz meus olhos se perderem, principalmente quando o outro está falando. Você é a minha pausa no meio das conversas. O muro que eu vou construindo gradativamente entre ele (seja lá quem for) e eu. Minha trava de (in)segurança. É você quem contradiz a filosofia “tudo passa” que eu acreditei a vida inteira. Infinito que se esconde atrás da linha do horizonte, lugar onde você está. Você é o pote de ouro que eu fui buscar atrás do arco-íris e, chegando lá, estava vazio. Você é o esterco que fertiliza minha imaginação. Seu bosta.
Você é o único que pode me deixar realmente puta e que me fantasia de puta quando somos apenas nós dois. Você é quem eu me preocupo de verdade, com quem eu não faço média, a quem eu me mostro em carne viva. Quem me desnuda de pudores, minha boca que só libera as respirações mais íntimas ao teu ouvido. O contrário de tudo isso quando não-você.
Você é o que eu não mudo em mim em meio a todas as minhas permanentes mudanças. Você é o olho do furacão, o lugar mais calmo da tormenta, mas que eu preciso passar por todo vento que gira até chegar lá. Não é culpa minha ser tão pequena e leve, eu sempre voo.
É quem me faz esquecer as normas de ortografia & estética, te repetindo quarenta vezes em um único texto. Um milhão de vezes na vida real.
Você é quem ordenou que eu não posso te amar. Azar o seu eu ser tão desobediente.